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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Como identificar uma nova forma de vida

Max Barclay, do Museu de História Natural de Londres
Max Barclay gerencia uma coleção com 170 mil espécies de besouros

Em 12 de fevereiro de 2014, uma nova espécie de besouro foi identificada. O inseto tinha a cabeça em forma de hexágono e incrivelmente colorida com um tom metálico entre o verde, o azul e o roxo, além de antenas denteadas.

A descoberta não foi necessariamente uma façanha, já que, a cada dia, cientistas no mundo todo identificam cerca de 50 novas espécies.
Mas este não é qualquer besouro. Ele foi coletado na Argentina, em 1832, por ninguém menos que Charles Darwin, durante a famosa viagem que ele fez a bordo do navio Beagle.
Só que apesar da aparência extravagante e das origens históricas do inseto, foram necessários 180 anos para que o biólogo Stylianos Chatzimanolis, da Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, percebesse que se tratava de espécie nunca catalogada. O besouro foi batizado de Darwinilus sedarisi.

Essa extraordinária história está cada vez mais perto de se tornar comum. Há hoje cerca de 1,2 milhão de espécies conhecidas e catalogadas vivendo no planeta. A cada ano, são acrescentadas à lista de 15 mil a 20 mil novos organismos.
Em 2011, cientistas estimaram que o mundo tenha pelo menos 7,5 milhões de espécies esperando para serem descobertas.

Expedição no museu

Museu de História Natural de Londres
Revirar as prateleiras de um museu pode resultar em uma nova descoberta

Quando um pesquisador acredita ter encontrado um novo ser vivo, ele primeiro precisa verificar se o organismo já foi ou não catalogado. Depois, é preciso escolher um nome para a espécie e publicar uma descrição detalhada, especialmente das características que a distinguem de outras espécies.
Toda vez que escutamos que uma nova espécie foi descoberta, a história frequentemente envolve cientistas em lugares exóticos – como ocorreu com um grupo de pesquisadores que, em 2013, foi levado de helicóptero a uma cordilheira do Cabo Melville, no norte da Austrália, e saiu de lá com dezenas de novos seres vivos.

Mas não se deve pensar que a maioria das descobertas é realizada em pesquisa de campo. É possível ter bastante sorte – e economizar bastante – simplesmente fazendo o que Chatzimanolis fez: visitar um bom museu e examinar cuidadosamente as espécies guardadas ali há muito tempo.
"Foi uma grande surpresa para mim, porque pensava que a coleção de Darwin tinha sido muito bem estudada", conta o biólogo.
Em 2012, pesquisadores do Museu Nacional de História Natural de Paris estimaram que leva uma média de 20,7 anos até que espécimes coletados sejam descritos e catalogados como uma espécie nova.

Por que tanto tempo assim? Bom, parte da resposta para isso está atrás de uma enorme porta marrom que leva ao terraço do primeiro andar do famoso Museu de História Natural de Londres. Em uma sala de 16 x 73 metros, 1,1 mil armários verdes - cada um com 22 gavetas - guardam cerca de 10 milhões de besouros de 170 mil espécies.
Max Barclay, coordenador da coleção, aponta para as caixas e caixas cheias de besouros que ainda estão esperando para serem catalogados.
"Quando um pesquisador nosso volta de uma expedição com 20 mil besouros, levamos de três a quatro anos catalogando-os e organizando-os para serem exibidos. Depois ainda temos que agrupá-los nas famílias corretas e depois classificá-los por espécie", diz ele.

Debaixo do nariz

Apenas 7% dos fungos do planeta foram identificados, segundo cientistas

Mas se você não tem vontade de passar horas vasculhando as prateleiras empoeiradas de um museu, pode tentar outras alternativas. Às vezes, novas formas de vida são descobertas literalmente debaixo de nossos narizes.
Foi o que aconteceu com Bryn Dentinger, diretor de micologia (estudo dos fungos) do Jardim Botânico de Kew, em Londres: ele descobriu três espécies nunca identificadas de fungos do gênero Boletus em um pacote de cogumelos secos que sua mulher comprou no supermercado.
A minúscula salamandra Urspelerpes brucei foi descoberta a 20 metros de uma estrada do Estado americano da Geórgia, em 2007, enquanto o sapo-leopardo do Atlântico (Rana kauffeldi) foi identificado pela primeira vez na povoada Staten Island, em Nova York.

Também é importante lembrar que algumas formas de vida têm recebido mais atenção do que outras. O estudo sobre espécies não descobertas realizado em 2011 concluiu que 70% das plantas do mundo são conhecidas, mas essa proporção cai para 50% entre as algas, 22% para protozoários unicelulares, 12% para animais e só 7% para os fungos.
Isso se deve em parte ao fato de termos nos concentrados em buscar espécies para comer ou para outros usos, e em parte porque alguns organismos são mais fáceis de serem encontrados. Muitos fungos, por exemplo, são microscópicos e vivem dentro de outros seres vivos.

Cogumelos... mágicos

Conhecer novas espécies é particularmente válido no caso dos fungos, argumenta Dentinger, porque "esses organismos são fundamentais em nosso mundo".
"Dependemos extremamente deles para alimentos e para remédios; eles são responsáveis por boa parte da decomposição de matéria morta e praticamente todas as plantas dependem dos fungos para obter água e nutrientes", lista.
"Essas importantes funções vêm de apenas 1% dos 100 mil fungos que conhecemos, por isso podemos imaginar o incrível potencial de espécies que ainda precisam ser encontradas e catalogadas."

Algumas das grandes descobertas da Ciência nunca teriam ocorrido sem a compreensão detalhada da diferença entre espécies. Uma dessas descobertas é a própria teoria da seleção natural, de Darwin.
Quanto mais a fundo compreendermos as variações entre os seres vivos que nos cercam, melhor podemos entender como cada um pode nos beneficiar e preservar esses benefícios.

Fonte: BBC
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