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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Existe algum ser imortal na natureza?

Existe algum ser imortal na natureza?

Aprendemos na escola que os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Para uma espécie de criatura que vive no mar, porém, morrer não faz parte, necessariamente, do destino. A não ser que seja abocanhada por um predador, a água-viva da espécie Turritopsis dohrnii pode viver indefinidamente. A sua capacidade de rejuvenescimento fez com que ficasse conhecida como "Benjamin Button" ou "Highlander" dos oceanos.

O primeiro cientista a revelar a suposta "imortalidade" desta água-viva foi o então estudante de biologia marinha alemão Christian Sommer, em 1988. Mas o principal responsável pela fama de imortal dessa espécie é o japonês Shin Kubota, do Laboratório de Biologia Marinha Seto, ligado à Universidade de Quioto.

Kubota dedica a sua vida ao estudo da Turritopsis, entre outras criaturas marinhas, a ponto de receber grupos escolares com frequência no local onde vive, numa cidade na província de Wakayama. O pesquisador já compôs diversas músicas em homenagem à água-viva, cantadas à exaustão nos karaokês que frequenta e nos programas de televisão e rádio aos quais comparece no Japão.
A capacidade de rejuvenescimento da Turritopsis pode existir, também, noutras espécies do mesmo grupo. Porém, só foi bem documentada, até agora, nesta água-viva que tornou-se numa obsessão para Kubota.

A Turritopsis faz parte do filo dos cnidários, também chamados de celenterados. A sua principal característica é a presença de cnidas, células onde fica a toxina que torna as águas-vivas, medusas e caravelas tão assustadoras. Nos seres humanos, o veneno de algumas espécies pode causar reações alérgicas e até choques anafilácticos.

As águas-vivas passam por duas fases no seu ciclo de vida: a de pólipo, quando ficam fixas numa base, como uma rocha, e geram inúmeros descendentes por reprodução assexuada, e a de medusa, "produtos" da reprodução que nadam pelo oceano. "É como se fossem milhares de cópias a nadarem juntas, ou clones, que partilham o mesmo genoma", descreve.

A particularidade da Turritopsis é a presença de células não diferenciadas, análogas às células-tronco humanas. Elas são totipotentes, ou seja, podem transformar-se em qualquer célula e compor qualquer tecido, e garantem um processo de regeneração contínuo a essas águas-vivas. Ou seja: mesmo depois de atingir a fase adulta reprodutiva de medusa, os seus tentáculos degeneram-se e ela volta à fase larvar e imatura de pólipo. E assim sucessivamente.

Uma forma de observar a «magia» da Turritopsis é, curiosamente, induzir o stresse na água-viva. Numa demonstração feita a um jornalista do The New York Times, em 2012, Kubota "esfaqueou" a medusa diversas vezes com um instrumento de metal. Depois de alguns dias, o repórter viu a criatura adquirir o formato de uma almôndega, gerar brotos e virar novamente um pólipo.
O processo também acontece sem o estímulo sádico: para um estudo sobre a Turritopsis publicado na revista Biogeography, Kubota acompanhou uma colónia durante dois anos e, nesse período, viu-a renascer dez vezes. Nada mal para uma "highlander".

Ainda é cedo para dizer se o estudo dessa água-viva vai levar à descoberta de algum elixir da juventude. A própria promessa que há alguns anos ressoava sobre produzir órgãos inteiros com células estaminais ainda continua distante.

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