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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Avós dos neandertais viviam disputas como na série 'Game of Thrones'


A luta violenta pela sobrevivência e a disputa de poder entre reinos e clãs desiguais pode ter levado alguns povos antigos a desenvolver características faciais mais rapidamente que outros, revela um estudo publicado nesta quinta-feira.
Uma nova pesquisa feita com 17 crânios de uma coleção de vestígios de 430.000 anos, encontrada na base de um poço subterrâneo na Espanha, sugere que as mandíbulas grandes foram a primeira característica proeminente destes pré-neandertais.
As grandes mandíbulas podiam estraçalhar carne, abrir-se amplamente e ser usadas como ferramenta ou como uma terceira mão, auxiliando os hominídeos a adaptar suas necessidades alimentares a um ambiente rude e frio.

Segundo o estudo publicado na revista Science, o fato de seus crânios serem compactos, sugerindo um cérebro pequeno, indica que o desenvolvimento do cérebro maior, visto nos neandertais, ocorreu posteriormente no processo evolutivo.
O grupo é a maior descoberta conhecida de vestígios humanos remotos, e incluiu 28 indivíduos, dos quais 7.000 fragmentos ósseos foram escavados desde que o sítio de Sima de los Huesos, nas montanhas Atapuerca, foi descoberto, em 1984.
Eram jovens adultos quando morreram, o que levanta uma série de dúvidas que ainda precisam ser respondidas pela ciência: como morreram? Como chegaram ao seu local de descanso eterno, na base do poço?

Cientistas afirmam que eles podem ter sido atirados - em ato cerimonial ou não - dentro de um buraco por seus conquistadores.
Chefe das pesquisas, Juan-Luis Arsuaga, da Universidade Complutense de Madri, comparou a história destes homens primitivos à trama de "Game of Thrones", popular série de TV baseada nos romances de George R.R. Martin.
"Nós achamos que um cenário de 'Game of Thrones' provavelmente descreve a evolução dos hominídeos na Eurásia e na África, no período Pleistoceno Médio", declarou a jornalistas.
"Como na série famosa, nunca houve um reino europeu uniforme e unificado no Pleistoceno Médio, mas um número de 'casas', vivendo em diferentes regiões e competindo frequentemente por terras", acrescentou.
Alguns grupos tinham relações próximas, inclusive com membros da mesma extensa família, mas outros, não.

Destronado?

O isolamento entre clãs de humanos remotos ou hominídeos significava que o longo processo de adaptar suas características ao ambiente aconteceu em altos e baixos.
"A evolução humana não foi uma evolução lenta e gradual de toda a população na mesma proporção em todo o continente", disse Arsuaga.
"Agora está claro que o conjunto das características dos neandertais não evoluiu no mesmo compasso", prosseguiu.
Arsuaga disse que eles devem ter sido de alguma forma "destronados" por outros hominídeos.
"Eles não morreram em uma catástrofe natural ou geológica", acrescentou. "Mas nós achamos que eles podem ter sido aglomerados por outros humanos", destacou.
O DNA mitocondrial de um dos fragmentos mostra que estes indivíduos não eram neandertais.
Seus vestígios também datam de cerca de 200 mil anos antes da existência conhecida dos neandertais.
"É possível que representem um único clã", afirmou Rolf Quam, paleontólogo da Universidade de Binghamton, em Nova York.

"Certamente são da mesma espécie. Estão na mesma população biológica, portanto estão relacionados estreitamente um com o outro", prosseguiu.
Mais trabalhos meticulosos para extrair o DNA podem, no futuro, desvendar as circunstâncias que levaram às suas mortes.
"A origem desta aglomeração pode ser considerada o maior mistério da arqueologia", disse Arsuaga.
Além disso, os crânios finalmente precisarão de um novo nome para situá-los na árvore genealógica humana, embora esta questão ainda precise ser definida.
Enquanto isso, eles não deveriam mais ser considerados, como foram anteriormente, parte dos "Homo heidelbergensis", primeiros humanos remotos que viveram em ambientes frios.
Os restos também são diferentes o suficiente dos neandertais para ser gerar uma nova classificação ("taxon"), revelou o estudo.

Segundo Adam Van Arsdale, professor assistente de antropologia no Wellesley College, que não participou do estudo, o argumento do artigo de que as mudanças faciais evoluíram primeiro "é perfeitamente aceitável".
Ele também disse que a relutância dos cientistas em estabelecer uma classificação para os vestígios reflete "uma das questões emergentes mais prementes da evolução humana".
"Como lidamos com linhagens evolutivas diferentes que mantêm habilidades reprodutivas com outras linhagens?" - perguntou Van Arsdale.

Fonte: AFP
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